Há por certo uma grave crise na pintura, como a há na política. Muita gente pinta para ganhar dinheiro; e, outros haverá que estão convencidos que as coisas corriqueiras que fazem estão perto da genialidade. Mas de facto NOVO há realmente muito pouco – ou é novo, este tão prolongado e tão dolorosamente evidente NÃO HAVER, reflexo de uma crise das mais excepcionais da história, que não permite qualquer hipótese de amanhã. A Bósnia, a SIDA, a droga, ou o metropolitano de Tóquio são horrores do nosso dia a dia; mas mesmo sem se ser parvamente optimista, se torna evidente que o mundo não vai acabar, que ao fim do túnel a luz vai irromper – com que intensidade e quando e com que exigências, é que ninguém pode prever.
Entretanto encontra-se gente que pinta ainda fora dos circuitos da celebridade real ou fictícia, e seria sobre estes que eu gostaria de escrever, mas é sobre os que das mil e uma maneiras possíveis já atingiram a celebridade, que insistentemente se escreve e reescreve.
O Luís Athouguia quis mostrar-me a sua pintura; trata-se de pedaços de sonho, jardins para os nossos olhos passearem, lembranças obscuras, iluminações intermitentes, palavras tresmalhadas, janelas da sua alma, a sua natural respiração.
É evidente que esta minha linguagem não é a que se adequa à circunstância de um prefácio. E de resto quem, sem algum risco, pode entre milhões de pretendentes eleger hoje um único? Por isso se diz de uma qualquer pintura aquilo que se podia dizer de uma qualquer outra. Quanto a mim, é nada sabendo, que tento apresentar este pintor à vossa sensibilidade.
Sempre agradecerei, entre as coisas mais belas que me aconteceram, o ter sido das primeiras vozes a referir o Raul Perez, a Paula Rego, o Mário Botas ou o Manuel Amado. A eles o agradeço, pois de forma tão excelente, souberam confirmar a cegueira da minha paixão.
A pintura do Luís é encontro e desencontro, é uma certa dose de solidão, é um eco, uma ténue ponte, a luz da madrugada, o discreto marulhar da água na secura da paisagem, a fronteira entre o ontem e o hoje, um projecto de viagem.
A verdade é que já não há coluna gótica que não tenha a sua motorizada, como se fossem irmãos de sangue, ou mesmo amantes. E reconhecido está, que os nossos pés são sempre terra estrangeira.
Por vezes naquilo que o Luís guarda em pastas, e por certo aparecerá noutras exposições suas, há momentos exaltantes, como o da beleza dos seus desenhos de 1985, que são manuelinos como alguns desenhos do Areal, e pedem um editor que infelizmente por agora não temos.
Sei lá o que vai acontecer a esta pintura amanhã? Mas hoje, não posso deixar de homenagear nela gente que é desconhecida, e deveria ser conhecida. Quero referir as quatro paredes deste atelier onde há pintura de familiares do Luís, que por estranha maquinação do meio ou da estória não nos foi mostrada ainda. No Luís cumpriu talvez, essa pintura, uma parte da sua missão.
É evidente que isto não é um prefácio, que não o sei fazer, e que me vanglorio disso. Sensatamente quando do nosso encontro, disse-lhe que não contasse comigo para prefaciar esta sua primeira exposição individual em Lisboa, mas regressado a minha casa foi-me impossível manter esta prudente intenção, e aqui lhe deixo este abraço algo amargo, de que me desculpo. Não posso deixar de lhe pedir, ou de lhe exigir, sempre mais liberdade e invenção; mas o mais difícil é saber ir até onde a liberdade e a invenção não nos escravizem.
Se o ter-me pedido algumas palavras me dá algum direito, tomo-o para lhe pedir que não tenha pressa de ser reconhecido, e que não vista a sua pintura à última moda de Paris ou Nova-Yorque. Quantos anos esperou Picasso para ser mostrado em museu? Pois hoje mal terminado o quadro, há logo quem vá bater apressadamente à porta do museu, o que não posso deixar de interpretar como o fim lamentável de todo o impulso revolucionário.
Lisboa, Março de 1995
JOAN LLUÍS MONTANÉ DE LA ASOCIACIÓN INTERNACIONAL DE CRÍTICOS DE ARTE
LUÍS ATHOUGUIA, DA PERCEPÇÃO À FORMA, ONIRISMO E TRANSCENDÊNCIA
A sua obra está dividida em duas vertentes: a geométrico-abstracta e a deliquescente, gestual. Na primeira desestrutura temáticas, realidades que se convertem em outras realidades que não têm necessariamente que ver com a real, em partes de um puzzle que muda a cada momento, mas mantém a sensualidade cromática, a força da divisão produzida pela introdução da cor negra, enquanto a sua outra produção artística é mais densa, deliquescente, desligada de estruturas formais, produto das suas elucubrações abstractas.
A sua produção pictórica move-se entre mundos diferentes, um, o real, o que se nutre de referências directas, precisas, de uma realidade que não é a nossa mas que procede da que partilhamos, ainda que a desestruture, mediatize, avançando das essências que a conduzem, porque não lhe interessa a descrição, procurando outras inscrições procedentes do mundo onírico, do submundo dos interstícios da fenomenologia da própria variabilidade da existência. Tudo está sujeito a mudanças, não há virar de página, porque não existe o real estático, senão uma visão dinamizada da mesma, em que tudo é mudança e daí a presença de fragmentos, de realidades formais que nos conduzem a outras realidades inventadas, mentais, neuronais ou até procedentes de outros mundos. Não está neste mundo, mas num intermédio, entre a vigília e o sonho, a meio caminho entre a viagem astral e a proposta visceral de uma maneira de visionar a existência mais além das condicionantes biológicas.
Esta sensação aumenta na sua obra mais abstracta, na qual tudo parece fluir, ser produto de circunstâncias e momentos que transformam cores, formas e conceitos, que viajam com a força da luz, que se desintegram e se voltam a integrar. Não há nada de estranho nisso, porque o importante não é o que se vislumbra, mas sim o que o artista quer dizer-nos. Quer dizer que a sua mensagem é complexa, quer comunicar muitas coisas, todavia não é transparente, mas sim produto da acção de diferentes energias que acedem e se ligam à sua própria infra-estrutura.
Quer, a todo o momento, propiciar uma reflexão em torno da realidade existente, dotar-nos de uma visão distinta, de um pensamento referente à própria vontade de ser transparente, lúcido, de veicular-se em linha com propósitos que se baseiam na profilaxia do sistema de geometria surreal abstracta que se encontra no cosmos da sua micro realidade.
Ordenado, calculador, deixa fluir mas controla as energias, dirigindo-as aos objectivos plásticos que lhe interessam, procurando controlar o descontrolo das formas, incidindo nas possibilidades de expressão das linhas plasmáticas que interligam as energias que nutrem cores e formas.
Visiona a realidade a partir dessa outra existência, fomentando a ideia de liberdade contida no onirismo da sua temática, baseada nos prolegómenos da sua vidência Não está neste mundo, mas num intermédio, entre a vigília e o sonho, a meio caminho entre a viagem astral e a proposta visceral de uma maneira de visionar a existência mais estruturada em torno da fragmentação das partículas.