SOBRE A PINTURA DE LUIS ATHOUGUIA

 
                …todos os quadros onde reina o formidável pastel de Luís Athouguia, são janelas abertas para a emoção. São janelas que nos fazem ver vidas guilhotinadas mas que gozam de uma faculdade de locomoção desmesurada. São janelas essenciais que deixando para trás o quotidiano mais prático se abrem a velozes mares de pensamento. São janelas incessantes que dão para montanhas movediças de sonhos. Não tenhamos medo de o dizer: o pastel substancial de Athouguia ilumina a nossa noite e traz-nos a pureza dos primitivos tempos em que podíamos tocar as estrelas com as mãos.
                Diga-se: ninguém actualmente em Portugal faz uma pintura destas. O Luís Athouguia é único e inclassificável (não é surrealista nem deixa de ser quando afirma a sua reticência!) e é toda esta volúpia do sonho que faz a sua força. E também o seu equilíbrio. Agora que morreram o Mário Botas, o Cesariny, o Álvaro Lapa, resta-nos o Luís Athouguia para nos conduzir ao país onde os coelhos usam relógios de pulso e as meninas têm mais de dois seios no peito.
Manuel da Silva Ramos (Escritor)
 
                "…pedaços de sonho, jardins para os nossos olhos passearem, lembranças obscuras, iluminações intermitentes, palavras tresmalhadas, janelas da sua alma, a sua natural respiração.
                A pintura do Luís é encontro e desencontro, é uma certa dose de solidão, é um eco, uma ténue ponte, a luz da madrugada, o discreto marulhar da água na secura da paisagem, a fronteira entre o ontem e o hoje, um projecto de viagem."
Cruzeiro Seixas (Movimento Surrealista)
 
                “A produção actual de Luís Athouguia faz uso de uma linguagem plástica elaborada, com uma sintaxe e uma semântica bem desenvolvidas e muito específicas. Há mesmo um repertório de figuras, de símbolos ou acções que vão sendo manipulados de forma persistente, fazendo e refazendo múltiplas ficções em torno daquilo que parece ser uma única mitologia. E se há mitologia é porque há mundo, mundo metaforicamente transfigurado em visão.
                Ou seja, aquilo que de fundamental Luís Athouguia nos propõe é a partilha da sua mundividência, da sua concepção estética do cosmos, apresentada e fragmentada em cada obra, trazendo a campo essa inaudita possibilidade, a possibilidade de, através de um sistema simbólico próprio, o observador poder desenvolver por si uma teia de conexões entre os diversos elementos simbólicos pertencentes a um mesmo alfabeto pictórico (sistema) relativamente decifrável.
                Um imaginário de tipo apocalíptico (como sinal do fim dos tempos ou da revelação eminente) é convocado para engendrar um lugar virtual destinado aos elementos figurados que constituem a pintura em si.”
Rui Matoso (Gestor e Programador Cultural)
 
                ... A sua “representação” é bem mais profunda (no tempo e no espaço) que o teor do sonho, da vigília, do transe, ou mesmo do êxtase, e está muito para além do alcance da Psicanálise, da História, ou mesmo da Ciência. Isto porque os conteúdos aprofundados são aqueles da consciênciaem si.
                Numa condição superior a qualquer sonho, imaginação ou alucinação, a consciência recriadora deste autor aprofunda a leitura e codificação de anagramas de memória, circulantes - em potência - na nossa genética.
                Por entre as fendas dinâmicas de uma exuberante realidade pré-mítica Luís Athouguia criou um código próprio pelo qual exprime a harmonia de um jogo entre opostos.
                Luís Athouguia recria em suporte ideogramas da consciência universal, os quais reflectem (fazendo-nos reflectir acerca de) o desejo radical a todo e qualquer ser existente, i.é., o querer saber na Natureza e o sentir do mais alto apelo Cósmico.
José Neto (Artista Plástico) 
 
                Dizia Schopenhauer que o mundo visível é mera aparência e que só adquire importância quando estamos conscientes de que através dele se expressa a verdade eterna. A pintura de Luís Athouguia mostra-nos a sua verdade eterna adornada de cor e submetida à experiência. Trata de exteriorizar uma ideia, depois de analisar o seu eu íntimo, dotando-a da capacidade de sugerir, de estabelecer correspondências entre os objectos e as sensações. Sente a necessidade de expressar uma realidade distinta do tangível e tende à espiritualidade. O símbolo converte-se no seu instrumento de comunicação decantando-se por figuras que transcendem o material e nos transportam a mundos ideais. É, indubitavelmente, uma obra que convida a observar e pensar.
Jesús Díaz Hernández (Poeta) 
 
                “Uma rígida e estruturada disciplina, formaliza e geometriza a sua arte.
                No domínio da suavidade cromática, contrasta e harmoniza o intelecto do emotivo.
                Sentir a sua arte, é sentir o equilíbrio do movimento, a sensatez da vida, o optimismo no amanhã, retratados linha por linha, forma por forma, cor por cor, nos seus desenhos figurativos esquemáticos, como também no abstracto geometrizado. Foi o que senti ao observar pela primeira vez a pintura de Luís Athouguia, comoveram-me as pulsações tensas, contidas, redutoramente serenas, que emanavam da sua obra.
                A matéria que ao mesmo tempo anunciava a sua substância secreta que despejava em torno de si próprio, os efeitos multiplicadores da sua linguagem.
                O límpido cromatismo de um universo cujo porvir da sua gramática se ajustava a novos conceitos, construía e desfazia ícones, mitos, sob o jugo de irrestrita fidelidade a uma certa sintaxe geométrica, atrás da qual se escondiam labirintos lógicos, previstos pelo artista.
                ...a obra de Luís Athouguia surpreende e anima, na unidade da força que habita nas suas cores, a necessária sobriedade das suas composições em que a pintura assume toda a sua razão de ser de uma profunda poesia num acto criador contemporâneo.
                Pintura despojada, sintética e envolvente. E cada vez mais pintura. PINTURA SÓ.”
Álvaro Lobato de Faria (Director da Galeria MAC) 
 
                Apesar de ser comum pensar que a lógica pertence ao lado frio da razão ao passo que a arte, especificamente a pintura, pertence ao lado do fogoso da emoção, este dualismo primário e irreflectido não corresponde à realidade. E Athouguia é um dos muitos artistas que o provam: a sua pintura manifesta esse entrelaçamento da razão e da inteligência com a emoção e a intuição que faz da arte mais do que mera decoração de interiores emocionais. 
Desidério Murcho (Filósofo/Catedrático) 
 
                “A sua obra está dividida em duas vertentes: a geométrico-abstracta e a deliquescente gestual. Na primeira desestrutura temáticas, realidades que se convertem em outras realidades que não têm necessariamente que ver com a real, em partes de um puzzle que muda a cada momento, mas mantém a sensualidade cromática, a força da divisão produzida pela introdução da cor negra, enquanto a sua outra produção artística é mais densa, deliquescente, desligada de estruturas formais, produto das suas elucubrações abstractas.
                Visiona a realidade a partir dessa outra existência, fomentando a ideia de liberdade contida no onirismo da sua temática, baseada nos prolegómenos da sua vidência estruturada em torno da fragmentação das partículas.”
Joan Lluís Montané (Asociación Internacional de Críticos de Arte) 
 
                “A linguagem do Autor serpenteia à volta e no âmago de uma meada cromática de matrizes fascinantes onde a luz (do étimo latino luce) é rainha, não consorte, não par de cama, mas rainha-mor; trata-se de uma luz vivaz, que já fecundou o pó, pô-lo a caminho, rumo à pátria da água. Abeiramo-nos, afirmativamente, de um sonho com maiúscula, mas, para lá da construção desse habitat onírico, descortina-se um adestramento superconseguido na combinatória das cores, que são fixadas ou impostas ao suporte impelidas pela força táctil das mãos.
                Luís Athouguia afigura-se-nos ser um artista renovado, com uma pulsão encantatória nos objectos visuais que desvenda. Acaba, outrossim, por mostrar-se cénica a sua proposta; em definitivo, situada entre um diapasão de ruptura e o gosto lavado que a Arte assumida no tempo confere, desde os Gregos (de notável qualidade de pensamento, mas profundamente ignorantes…) até ao signo dos foguetões sábios, dos beijos cibernautas e dos corações feitos de lata e arames.”
Fernando Grade (Poeta – Pintor)
 
                “Luís Athouguia prossegue num território pictural muito pessoal, inequivocamente singular, intensificando cada vez mais as razões que o levam à verbalização tanto de objectivos como de instantes transitórios inerentes ao processo da pintura. Expressionismo, geometrismo, colorismo; mediante eles o pintor propõe espaços plásticos nos quais junta o reflexivo e o poético e intuitivo, o geometrismo e rigor e o lirismo.”
Rodrigues Vaz (Jornalista e Crítico de Arte)